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Daniel Pradeep Singer / Songwriter - Ouça Your Soul Blog (OYS)
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
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fevereiro 02, 2013

Soul to Soul: da Origem às Américas. Parte 1: América do Norte (EUA)

Daniel Pradeep

Da África para as Américas diferentes ritmos musicais se estabeleceram associados às manifestações de identidades que buscavam reconhecimento em sociedades repletas de desigualdades e direitos violados. Da época da escravatura à atualidade, os “genes culturais” (=memes) africanos se miscigenaram e mutaram unindo seus pares da América do Norte a América do Sul. Ritmos contagiantes venceram barreiras geográficas e políticas e invadiram novos territórios sempre adaptados aos novos cenários sociais. 

Após o descobrimento da América, a prática da escravidão explodiu no mundo. Muitas civilizações africanas foram desestruturadas mediante a captura, compra e importação de escravos por civilizações europeias, que colonizavam as Américas naquela época. Esta prática levou a introdução de africanos na América do Norte, Central e do Sul. Mesmo diante de subjugação, a rica cultura africana daqueles que chegaram se manteve em meio todas as adversidades. As danças, os batuques e os cantos foram o caminho para a sobrevivência através da conexão com suas divindades. Cantando e dançando, espantando os males, diminuindo a dor e resgatando a dignidade. Assim surge a Black Music nas Américas como diferentes manifestações musicais dos negros trazidos da África em processual diálogo com a bagagem musical dos colonizadores europeus. 

No século XIX, os escravos foram praticamente proibidos pelos seus senhores de tocar instrumentos de percussão em solo norteamericano. Além de estarem relacionados aos cultos religiosos pagãs, esses instrumentos também incitavam rebeliões. Neste mesmo período surgiram as chamadas work-songs, que eram cantadas durante a colheita do algodão nas proximidades do Rio Mississípi, no sul dos EUA. Esses cânticos chamados de Negro Spirituals tinham letras de cunho religioso, além de uma mensagem positiva que dava suporte e confiança aos escravos diante de tanto sofrimento. Por darem um ritmo ao trabalho, esses cantos eram bem vistos pelos senhores des escravos. Inicialmente eram cantados em idioma africano e posteriormente absorveram a língua inglesa.  



Derivado do Negro Spirituals surgiu o Blues, uma espécie de música de lamento com base na blue note. Este estilo musical evoluiu e migrou do campo para os centros urbanos, com letras que abordavam o amor, sexo e traições. Muitos instrumentos utilizados pelos colonizadores europeus foram absorvidos pelos afrodecendentes e influenciaram a sua nova estética musical afro no Novo Mundo.

Nos anos seguintes à abolição, que ocorreu em 1863, muitos negros começaram a trabalhar em casas noturnas e teatros. Distintos estilos musicais se desenvolveram neste período como, por exemplo, o Ragtime, que surgiu do Cakewalk, uma espécie de dança e música afro originada dos escravos.  

A música Gospel, ou música do evangelho, surge como uma evolução do Negro Spirituals nas igrejas frequentadas pelos negros norteamericanos convertidos ao cristianismo no final do século XIX. Trata-se de canções de louvor utilizadas em cerimônias religiosas.



No início do século XX surgiu o Jazz da fusão do Negro Spirituals e de sua derivação, o blues, do Ragtime, bem como de outros ritmos que estavam presentes nas imediações do Mississipi e Nova Orleans, entre eles:sica espanhola, música francesa, polcas e marchas, sempre tendo como base o suingue e a improvização.  

Já a origem do termo "Rhythm and Blues" é controversa. Em 1947, o compositor da Billborad Jerry Wexler emprega R&B para definir o blues elétrico de Chicago. Em 1949, a Billborad utiliza R&B, termo não ofensivo, em substituição ao termo "música de raça". 

De todas estas vertentes surge o Soul no final da década de 1950 associado a luta do provo afro norteamericano pelos direitos de igualdade racial. As canções no estilo Soul são extremamente melódicas e muito ornamentadas. A estética do canto deriva do R&B e do Gospel. A interpretação é muito emotiva e é acompanhada por arranjo instrumental rico em efeitos sonoros que a acentuam.



É neste cenário de luta pela igualdade racial que surge o Funk e a figura central foi James Brown. Diferente do R&B que tem como base uma progressão de acordes, o Funk tem geralmente apenas um. A bateria de fundo, as vezes duas como nos grandes shows de Brown, é acompanhada por um baixo elétrico marcado fazendo um groove rítmico forte. A batida sincopada é costurada com rítmica seção de metais e frases repetitivas (riffs) de guitarra e outros instrumentos. Brown lançou várias canções pelas quais se comunicava com as comunidades negras alertando sobre os seus direitos, a necessidade de educação e de evitar a violência. Depois da morte de Martin Luther King, Brown provavelmente foi a pessoa mais influente nas comunidades de afrodescendentes norteamericanos.


 

Na década de 1970 surgiu a Disco Music como um movimento de liberdade de expressão gay, com origens musicais no Funk, Soul, música latina e música clássica. Além do baixo marcado, metais, cordas, arranjos orquestrados e vocal predominantemente em falsete definem este estilo. A Disco se disseminou pelas pistas de dança de todo o mundo, as quais foram a partir daí denominadas discotecas. Muitas cantoras abraçaram o estilo com vocais limpos e as vezes lembrando o canto lírico. Surge aí a disseminação do termo Diva entre a comunidade gay: mulheres talentosas, formosas, lindas, ou melhor, as verdadeiras divindades da música.


Ainda na década de 1970, o Dj estadunidense Afrika Bambaataa foi responsável pelo inicio do movimento hip-hop em comunidades novaiorquinas. O hip-hop se caracteriza pelos seguintes elementos: o Rap, uma espécie de discurso rítmico com rimas e poesias; estilos próprios de dança como breakdance, que se espalharam pelos grandes centros urbanos; o beatbox, um tipo de percussão vocal; a figura central do disc jockey ou Dj utilizando e recriando trechos repetidos de músicas (loop) por meio de sampler; e o grafite, um tipo de arte visual urbana na forma de desenhos pintados em paredes. Bambaataa incrivelmente resgata através de artefatos eletrônicos a percussão perdida durante a escravidão.


  

Em síntese, o contexto social adverso cheio de conflitos sociais e raciais foi determinante para o surgimento e evolução da black music em solo estadunidense. As canções de trabalho, registrando o lamento de um povo oprimido, foram a base para toda a evolução musical naquele país. Um resumo rápido pode ser visto no vídeo abaixo.

 

O coração do negro sempre bateu forte! Mesmo após anos de repressão essa impressão, não mais nos tambores, mas na batida do hip-hop, que evoluiu da batida do groove de Brown, criou um novo sentido de união e o fortalecimento da identidade da cultura afrodescendente norteamericana. E sabe onde isso tudo foi parar? Não? No Brasil! Seria mera coincidência? Seria a imposição de uma indústria cultural norteamericana aos países menos desenvolvidos? Ou apenas seria mais um passo da evolução cultural da música negra mundial por meio da mistura e mutação dos memes dos afrodescentes do norte, do centro e do sul, que romperam barreiras geográficas e políticas. Essa novela continua em SOUL TO SOUL: DA ORIGEM ÀS AMÉRICAS. Parte 2: América do Sul (Brasil - A Terra do Samba! Ou do Funk "Carioca"?)

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